As últimas semanas foram tomadas por um verdadeiro furacão. A Sony triplicou a aposta em seus posicionamentos corporativos ao reforçar que jogos digitais são apenas uma licença temporária e que não pertencem ao jogador — culminando no anúncio do fim do suporte a mídias físicas para focar 100% no ecossistema digital.
O que ela fez não foi apenas enclausurar seus consumidores, mas dizer abertamente que todos estão à mercê das vontades dela. O jogo que você compra hoje pode simplesmente não funcionar amanhã. Um título disponível hoje na loja pode desaparecer em dois anos e virar abandonware. Os problemas que essa discussão carrega são inúmeros.
Mas o maior desrespeito foi cuspir na cara do consumidor que a colocava em um pedestal — um tapa na cara de seus fãs mais leais, inclusive daqueles que a defendiam com unhas e dentes.
A resposta veio a cavalo: uma onda de compilações de exclusivos da Sony migrou para o PC, enquanto a cena presenciou o maior jailbreak da história do PlayStation 5 — o qual especialistas já encaram como o console definitivo para "jogar de forma amigável" (me falta termo melhor), dada a potência do hardware e o que ele já é capaz de produzir logo de cara.
Impulsionado pela inteligência artificial, há até Dragon Ball Z: Budokai Tenkaichi rodando direto no navegador neste exato momento. Sinceramente, acredito que vivemos um dos momentos mais lúdicos da história dos videogames.
Mas, apesar da empolgação com a cena e de toda a discussão ao redor do preservacionismo, quero raciocinar sobre outra coisa: até quando vale a pena gastar dezenas, centenas ou milhares de reais para colecionar dados digitais que podem sumir da sua conta a qualquer momento?
Entendendo o momento e o problema
A Nintendo adotou os key-cards, a Sony migrou para o 100% digital e até a Steam deixou explícito nos seus termos que, ao comprar um jogo, você não é o dono dele.
Em todas essas plataformas existe um problema caríssimo: você está pagando por algo que pode sumir a qualquer momento, sobre o qual não possui posse real e contra o qual não pode fazer absolutamente nada. Afinal, ao adquirir o produto, você aceita um contrato de licença que a maioria das pessoas nem lê.
Então, pense comigo: você é um jogador de PlayStation. Nos últimos anos, passou seu tempo montando uma biblioteca dentro do ecossistema da Sony, gastou milhares de reais em lançamentos e promoções e construiu um catálogo com centenas de jogos.
Você fez amigos nessa rede, conquistou troféus, platina seus jogos favoritos e acumulou um currículo gamer™ de dar inveja.
A partir do momento em que você "alugou" esse terreno e se assentou confortavelmente nele, fica à mercê de todas as decisões da empresa — e vai se sentir incrivelmente frustrado com isso.
Como você investiu tanto tempo e dinheiro na plataforma, apegou-se financeira e emocionalmente não apenas aos jogos, mas ao próprio sistema. Você se vinculou a uma marca. Parabéns: você foi sequestrado moralmente! E isso pode soar um ataque a um fã de PlayStation, ou também uma autocrítica do autor.
Você pensará duas ou três vezes antes de migrar para qualquer outro ecossistema. Qualquer medida arbitrária que a empresa tomar será aceita de forma leniente, e a tendência é que você continue consumindo os produtos dela por inércia.
Enquanto há muitos "navegadores dos sete mares" usufruindo de todo o poderio do hardware do PS4 e do PS5 agora, você pensa duas vezes antes de fazer o mesmo no seu console. Afinal, gastou muito dinheiro e tempo construindo uma moradia digital em um terreno alugado que pode ter o tapete puxado a qualquer instante.
Nesse momento, todo aquele dinheiro gasto com jogos que você sequer instalou começa a perder o sentido.
- Por que comprei tanta coisa que nem joguei ainda?
- Por que gastei tanto tempo por causa de um ícone na tela que apareceu depois de pular 200 vezes em um raio no mesmo lugar?
- Por que investi tanto da minha vida em algo passageiro?
E isso vale, obviamente, para a transição entre gerações. Não há garantia nenhuma de que o que você comprou há quatro anos funcionará na próxima geração de consoles de mesa.
São essas situações que surgem os "defensores de empresas multimilionárias" — caras que torcem o nariz para quem pirateia o produto de uma corporação que eles suportam há décadas. No fundo, eles se sentem lesados por pagar caro por algo que a vasta maioria das pessoas está usufruindo de graça.
A Steam talvez seja a exceção mais tolerável disso, pois no PC o campo já é aberto. Mas o questionamento sobre colecionismo digital e morar em terreno alugado continua 100% válido. Sim, você pode se sentir seguro com o Gabe Newell no comando. Mas o que acontecerá quando ele não estiver mais lá? Você tem 500 jogos e dezenas de platinas em um lugar do qual pensará 30 vezes antes de sair.
O futuro é incerto, até para a Steam. É uma excelente plataforma para manter uma biblioteca, mas ninguém garante acesso eterno a esses arquivos.
A GOG adota uma política rígida de jogos sem DRM. Isso significa que você pode comprar, baixar o instalador do jogo, arquivá-lo em um HD externo ou pendrive e trancá-lo a sete chaves para que ninguém o tire de você. Então, A GOG é a única salvação?
Mas você realmente tem espaço de armazenamento para guardar uma coleção de 700 jogos modernos baixados individualmente?
Você certamente gastará mais dinheiro com terabytes de armazenamento além dos próprios jogos se quiser manter essa coleção física e digital a longo prazo. E manter os arquivos não garante compatibilidade futura.
Vale a pena montar uma biblioteca digital?
Mês que vem sai um lançamento novo e você decide postergar por mais três meses aquele RPG que comprou em 2022. E assim a vida segue.
Quando montamos um catálogo em lojas digitais, não estamos sendo o Ed do canal Aperte Start, posicionado à frente de um cenário lindo repleto de hardwares físicos em estantes organizadas.
Aquilo tudo é do Ed. Ele pode abrir a estante, pegar o cartucho ou disco que quiser e jogar amanhã ou na semana que vem. Mas não podemos dizer o mesmo dos nossos jogos digitais.
A licença pode expirar, o jogo pode perder direitos de trilha sonora ou marca e não ser mais o mesmo e, na pior das hipóteses, caso dependa de recursos online, pode se tornar um jogo sem todas as funções originais.
Às vezes compramos no pânico um jogo de R$ 30 que originalmente custa R$ 80 achando que estamos economizando, quando na verdade estamos rasgando R$ 30 em algo que talvez nunca utilizaremos.
Se você gosta de jogos de nicho como eu, compra por pânico porque existe uma chance real daquele título sumir da loja de uma hora para a outra. Lembra do arena fighter dos Cavaleiros do Zodíaco (Alma dos Soldados)? É o exemplo perfeito.
Para franquias como Super Robot Wars, que vivem em um campo minado de licenciamentos de animes, a cada ano que passa aumenta a chance de sumirem do catálogo sem aviso prévio.
A indústria nos vende o tempo todo não apenas os jogos, mas a falsa sensação de que podemos colecioná-los — e o medo constante de perdê-los. Pouca gente fala abertamente sobre essa tática.
É como se voltássemos à época de comprar salgadinho por causa dos brindes por tempo limitado. O salgadinho é o seu videogame ou computador; o brinde é o jogo. No fim das contas, o tazo que vinha na Elma Chips era mais seu do que o seu God of War digital, porque você podia pegar o tazo na mão.
Claro, esses jogos não vão sumir do mundo: eles serão preservados pela pirataria, quer as empresas gostem ou não. Mas aí fica a reflexão: de que vale a pena gastar tanto dinheiro acumulando licenças?
Devemos questionar como consumimos jogos
Então, o que fazer daqui para a frente? Abandonar as lojas digitais? Migrar 100% para a pirataria?
Para mim, que ainda tenho dezenas de jogos comprados na fila, a resposta é não. Eu gosto de comprar e apoiar os desenvolvedores dos jogos de nicho e indies que consumo. É a minha forma de dizer que me importo com o trabalho deles e quero ver mais daquilo no mercado.
Mas isso precisa ter um limite saudável. E isso nos traz de volta ao perigo de construir um ecossistema ao redor de marcas que só querem o seu dinheiro e não estão nem aí para o que você construiu.
Vale a pena fazer algumas perguntas antes de apertar o botão de comprar:
- Estou comprando porque realmente quero jogar agora?
- Quero jogar este título ou apenas quero tê-lo por impulso, pânico de sumir ou puro colecionismo?
- Quanto controle real eu tenho sobre este produto?
- Estes desenvolvedores realmente merecem o meu tempo e o meu dinheiro neste momento?
Se para você colecionar jogos vai muito além da posse física, essa discussão pode parecer nula. Mas se você se importa com a posse, o questionamento é urgente.
Também não precisamos transformar cada compra em um martírio de produtividade: "Gastei, logo sou obrigado a jogar até o fim." Cada um faz o que quiser com o próprio dinheiro. Mas, no meu caso, vou pensar três vezes antes de ceder à vontade de "colecionar" ícones digitais daqui para a frente.
Afinal, a minha biblioteca real tem se tornado o próprio Memórias do Herói: eu me lembro com muito mais carinho e profundidade dos jogos sobre os quais escrevo aqui do que de todas as compras por impulso que fiz na Steam nos últimos três ou cinco anos.
Isso não significa que me arrependa de gastar todo esse dinheiro. Vou continuar apoiando cada novo Dragon Quest ou Persona, desde que essas franquias continuem me lembrando o porquê de eu amar tanto esse hobby — e sem me dar um tapa na cara por ser fã, como a PlayStation fez com os dela.
São essas compras que valem a pena: as dos jogos que você realmente ama e consome, e não as que você faz por puro consumismo.
Decisões de gigantes como a Sony prejudicam justamente quem não tem margem de erro: os estúdios pequenos e médios que dependem de cada venda para continuar existindo.
Se você gosta de jogos indies, não os deixe morrer. Apoie quem você acha que realmente merece sua confiança, independentemente de quem seja ou do valor que cobra. Mas questione se ela, ao menos, merece você.
Acho que essa é a maior lição que toda essa tempestade nos deixa: devemos questionar mais o que estamos fazendo com o nosso tempo, com o nosso dinheiro e com a nossa paixão pelos jogos.
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