Dragon Quest (1986) vs Final Fantasy (1987): Qual o melhor jogo? — Duelo de Titãs

CAPA: Dragon Quest (1986) vs Final Fantasy (1987)

Um embate direto entre franquias rivais

Não é segredo que Dragon Quest e Final Fantasy travaram batalhas épicas no mercado japonês com seus jogos nos anos 80 e 90. Os próprios desenvolvedores, Yuji Horii e Hironobu Sakaguchi, sempre admitiram e reverenciaram seus rivais de época. Essa rivalidade saudável entre mentes criativas foi o que ajudou a moldar o gênero dos JRPGs como conhecemos hoje.

Então, que tal cravarmos logo de início: qual dos dois jogos originais é o melhor? Dragon Quest (1986) ou Final Fantasy (1987), ambos do Nintendo Entertainment System (NES)? Um embate épico no clima dessa Copa do Mundo de 2026; vamos voltar um pouco mais no tempo no Entre Saves.

Para isso, vamos comparar as versões japonesas dos jogos para garantir uma fidelidade maior tanto aos defeitos quanto aos acertos. Estabeleci cinco critérios, mesclando aspectos concretos e subjetivos: História & Worldbuilding, Sistema de Batalha & Mecânicas, Arte, Trilha Sonora e Proposta. Cada categoria rende um ponto, sem ficar em cima do muro.

Lembrando que o foco é nos jogos específicos de NES, não nos ports, remakes, muito menos nas franquias inteiras. Então, bora lá!


Round 1: História & Worldbuilding

Demônio do Fogo em Final Fantasy (1987)

Para começar, este é um duelo bem vantajoso para Final Fantasy, já que ele foi desenvolvido quase dois anos após Dragon Quest, usando os mesmos conceitos básicos e buscando melhorá-los.

Final Fantasy tem uma história bem coesa e constrói seu mundo, deixando consequências visíveis: basta observar as cidades daquele continente devastado pelos quatro demônios. Dragon Quest, por outro lado, embora tenha uma lore detalhada por trás, usa as falas dos NPCs muito mais como um guia prático de progressão do que como narrativa propriamente dita. Ele é bem mais direto e tem poucos pontos de parada até o confronto final com o Dragonlord.

Há momentos em Dragon Quest que são sim memoráveis, como o Herói carregando a princesa em seus braços. Dito isso, Final Fantasy expande muito mais o escopo com os diálogos dos Demônios, povoados únicos como os das Sereias, os Lufenianos e, principalmente, o audacioso loop temporal de Garland.

  • Ponto: Final Fantasy!

Round 2: Sistema de Batalha e suas Mecânicas

Enfrentando Golem em Dragon Quest(1986)

Dragon Quest pega o que Wizardry tinha de melhor e deixa tudo muito conciso. Ele tem magias memoráveis só de lembrar (como a clássica Laliho), um sistema de combate punitivo na medida certa e muito satisfatório. Cada nível que você ganha importa de verdade e te faz sentir o progresso na pele.

Final Fantasy contra-ataca com seu inovador sistema de classes (jobs) e o cenário com visão lateral nas batalhas — que se contrapunha à visão em primeira pessoa de Dragon Quest —, permitindo enfrentar verdadeiros exércitos de até 8 inimigos em um único combate.

O grande diferencial de Final Fantasy era a inovação, mas o excesso de bugs na versão do NES sabota essa estrutura. Armas específicas não funcionam, magias de suporte falham ou dão o efeito inverso, e classes inteiras saem comprometidas. Junte isso à dificuldade brutal da época e o sistema acaba se quebrando.

Dragon Quest também tem seus problemas, como a constante vantagem injusta dos inimigos em emboscadas. Porém, o lado estratégico aqui funciona perfeitamente. Você precisa pensar em como lidar com um Green Dragon, colocando-o para dormir ou silenciando suas ações. As mecânicas entregam o que prometem. Além do mais, existe um charme inegável em ser derrotado por uma gosma azul sorridente na jornada solitária de Erdrick.

  • Ponto: Dragon Quest!

Round 3: Arte

Explorando em Dragon Quest (1986)

Yoshitaka Amano vs Akira Toriyama. Tem como avaliar isso? Bom, arte é totalmente subjetiva. Para este round, vou avaliar o character design e como ele se traduz nos jogos.

A arte de Amano é uma obra única, quase algo para se expor em museus. Seus traços dão um ar grotesco, sombrio e puramente fantasioso ao jogo. O grande problema é que a arte dele não foi bem refletida nos sprites do NES por limitações gritantes do hardware; o bonequinho do guerreiro na tela não representa em nada a imponência das ilustrações oficiais (talvez nem os remakes futuros conseguiram corrigir).

Conversando com NPC em Final Fantasy (1987)

Por outro lado, Akira Toriyama é o rei de fazer o simples se tornar carismático e memorável. Seja uma armadura clássica ou uma geleia azul sorridente conhecida como Slime (o mascote supremo da franquia), o traço dele casa perfeitamente com a proposta do jogo. Embora o hardware do NES também não fizesse total jus à sua arte (vide o sprite do próprio Erdrick), os monstros de Dragon Quest se tornaram símbolos icônicos da cultura pop.

Não existem monstros mais marcantes em um JRPG que os de Dragon Quest — e os que competem por esse topo estão em franquias de captura que se inspiraram diretamente no trabalho de Toriyama aqui. Por ter criado um legado visual tão forte e duradouro logo no primeiro título, o ponto vai para os monstros icônicos.

  • Ponto: Dragon Quest!

Round 4: Trilha Sonora

Mais uma vez no campo da subjetividade: Koichi Sugiyama vs Nobuo Uematsu. Um embate de lendas onde é difícil argumentar, já que não tenho conhecimento técnico musical. Vou focar em como as composições ditam a ambientação e o sentimento de imersão.

Sugiyama foi encarregado por Yuji Horii de criar músicas que "não envelhecessem" — uma forma cirúrgica de descrever seu trabalho. As faixas de Dragon Quest carregam um tom puramente aventuresco, sinfônico e clássico. E, embora o jogo tenha poucas músicas, elas grudam na cabeça. A Overture, o hino da franquia, nasceu aqui e chegou a tocar na abertura das Olimpíadas de Tóquio.

Uematsu, por sua vez, criou algo muito mais voltado para o épico e para a fantasia de combate. É impossível não se sentir energizado pelo tema de batalha de Final Fantasy. Ele dita o ritmo de um confronto contra criaturas míticas. Além disso, o jogo traz o nascimento de outro hino: o Prelude, que, por incrível que pareça, já foi usado como sample em funks brasileiros, provando que a franquia quebra barreiras culturais de formas inesperadas.

É uma escolha difícil; você facilmente se pegará assobiando as melodias de ambos no banho. Mas vou dar a vitória para Final Fantasy pelo repertório ligeiramente maior de faixas que se tornaram pilares da minha memória afetiva, como a Victory Fanfare, o Battle Theme e o próprio Prelude. Afinal, este é um blog de memórias!

  • Ponto: Final Fantasy!

Round 5: Proposta

Finalmente, o desempate em um terreno mais concreto: o que cada jogo almejava e o quão bem eles executaram suas ideias.

Dragon Quest (1986) Tela de Início

Em Dragon Quest, a grande missão do jogo (além de derrotar o Dragonlord) era simplesmente ensinar ao público de console o que era um RPG de Mesa. E ele entrega todas as ferramentas para isso. Os NPCs são extremamente funcionais e te guiam pela jornada, dando pistas diretas do que fazer. O arsenal de magias é conciso e direto.

Era um jogo difícil para a época, especialmente porque a versão japonesa não tinha salvamento por bateria no cartucho (dependia de anotar passwords longas), tinha encontros aleatórios constantes e apenas um herói para controlar. Mas o jogo equilibra isso com um game design inteligente, te dando uma armadura que recupera vida a cada passo na reta final — um dos melhores itens do gênero. Ele cumpre sua proposta de introdução perfeitamente.

Final Fantasy quis ir além: ele tentou entregar uma experiência completa e complexa de RPG de mesa em um videogame, com sistemas de classes, customização pesada e forte inspiração em Dungeons & Dragons.

Final Fantasy (1987) Início

Final Fantasy buscou um escopo épico e quase alcançou a perfeição. É uma pena que, mecanicamente, o jogo seja tão quebrado por bugs na sua versão original. Isso pesa muito contra na execução da sua proposta, tornando a experiência genuinamente frustrante em vários momentos, apesar de suas ideias brilhantes terem pavimentado o futuro do mercado ocidental.

Pelo brilhantismo de entregar uma fórmula redonda, acessível e totalmente funcional logo de primeira:

  • Ponto: Dragon Quest!

Placar Final: Dragon Quest 3 x 2 Final Fantasy

Gostou? Discordou? Jogou as versões originais de NES? Sinta-se livre para deixar sua opinião nos comentários. Esta foi uma brincadeira para analisar como esses dois pilares se comportavam em seus contextos históricos de nascimento. 

Seja seguindo os passos de Erdrick ou dos Guerreiros da Luz, todos nós temos um herói favorito.

Comentários